>reboot: por que abri este diário
Quando um dispositivo ou sistema passa por alteração significativa ou instabilidade, fazer uma reinicialização é a medida mais eficiente. O manual de instruções não manda, mas a prática ensina. Eu desconfiei que estava precisando de um reboot no meu modus operandi — antes que fosse necessária uma formatação.
Após 5 anos como professor de História, tendo trabalhado em 10 escolas e tendo lecionado para uma quantidade de alunos na ordem de grandeza de 10³, senti que era hora de seguir outro caminho. Depois de haver desenhado no quadro incontáveis vezes as linhas do tempo — representações simplificadas do tempo humano sobre a temporalidade histórica —, tornava-se cada vez mais evidente a chegada a um ponto de inflexão. Um acontecimento, um événement. A História é um jogo de continuidades — e de rupturas, especialmente.
Um conceito muito mencionado em teoria da História é o de „Entfremdung“, tomado de empréstimo da filosofia hegeliana. É a sensação de esvaziamento de sentido no ofício diário, o alijamento da sensação de propósito na sociedade. Eu não falo alemão, mas o termo traduzia perfeitamente o que eu estava sentindo. Antes que o estranhamento da rotina diária acabasse verdadeiramente me alienando, foi necessário tomar uma decisão bastante dura: pedi exoneração do cargo de professor. Mais que isso, decidi me exilar da sala de aula.
Como todo aquele que vive no desterro — seja por exílio imposto, seja um autodegredado —, precisei enfrentar as dores do afastamento. Sinto falta, especialmente, de todos os seres com quem dividi a sala de aula. Nossas veredas se bifurcaram, mas permanecem comigo suas histórias.
Nunca antes na vida eu consegui manter um diário. Contudo, o que outrora parecia um esforço é agora uma necessidade. Escrevo porque me aproxima do que se fez distante. Escrevo porque o ato bruto de entalhar com caneta a fibra do papel me ajuda a lembrar-me do que é real. Seja pintado na rocha em Altamira ou Lascaux, seja cunhado nos tabletes de argila em Nínive, seja copiado sobre velino nos códices de Monte Cassino — o que importa não é o suporte ou o material. É a necessidade. E a mão obedece ao inevitável: seja escrevendo no caderno, seja teclando na tela escura do terminal.